terça-feira, 17 de março de 2009



OUVINDO... O QUÊ?
O uso cada vez mais frequente dos fones de ouvido pode trazer danos irreversíveis para a saúde e as práticas sociais.

Não é de hoje que existe a preocupação com relação aos diversos danos que o uso de fones de ouvido podem causar às pessoas. No entanto, essa discussão se intensificou com o surgimento dos aparelhos de mp3. Aqueles que antes passavam o tempo ouvindo um CD de 80 minutos num diskman, hoje têm a possibilidade de criar uma lista de músicas que dure por horas, acompanhando a longa duração das baterias dos aparelhos.
Estudos comprovam que o uso prolongado dos fones, associado ao alto volume ao qual os usuários geralmente se expõem, podem levar uma pessoa a surdez. A informação é preocupante, pois, conforme a fonoaudióloga Cíntia Fahl alerta, a surdez não tem volta. “Nós temos células ciliadas dentro do órgão da audição,”, explica Fahl, “então quando uma pessoa se expõe a um som muito alto, essas células morrem e não existe um processo de regeneração, pois elas não são como as células da pele, por exemplo.”

A escolha do fone pode atenuar o problema, mas não irá eliminá-lo. Hoje encontramos no mercado três tipos básicos. Os mais comuns, chamados de earbuds, são aqueles colocados dentro da orelha; os in-ear ou intra-auriculares são parecidos com os earbuds, porém com uma suposta vantagem: seu design é feito de tal modo que eles são encaixados dentro do canal auditivo, bloqueando, assim, barulhos externos que podem fazer com que o usuário aumente o volume; e, por fim, os headsets - popularmente conhecidos como fone DJ – são aqueles grandes, almofadados que não se encaixam na orelha. Segundo a fonoaudióloga, “quanto mais próximo do canal auditivo o fone estiver, maior será a amplificação do som”, gerando danos mais graves.

No início, a perda de audição é sutil, e o seu progresso vai depender do tempo de exposição e do volume. A partir dos 85 decibéis (dB), a cada 3 dB adicionais, tira-se pela metade o tempo de exposição saudável. Se partirmos de 8 horas com 85 dB, você pode calcular o quão prejudicial poderá ser o uso de volumes maiores (4 horas para 88 dB, 2 horas para 91 dB e assim por diante). O primeiro indício de que algo não está bem com seus ouvidos é a presença de zumbidos, mas dificilmente as pessoas dão importância a eles. “É igual a alguém que tem miopia: até ela colocar o óculos de outra pessoa ou ir num oftalmologista para fazer um exame, ela provavelmente não vai perceber que a sua visão está diminuindo” – exemplifica Fahl.

Vários músicos já deram depoimento sobre traumas em seus aparelhos auditivos, como Eric Clapton, Phill Collins, Rogério Flausino (que já perdeu 30% de audição do ouvido direito), entre muitos outros. Além de acelerar um processo que só viria com a velhice, o uso irresponsável dos fones de ouvido pode trazer prejuízos também para a vida profissional. A fonoaudióloga cita o caso dos exames realizados em empresas nas quais o funcionário trabalha com máquinas. Ela explica que é feita uma audiometria antes, durante e depois que o empregado começa a trabalhar. “Muitas vezes você encontra adolescentes que já apresentam uma perda auditiva leve”, diz, “e é o mesmo tipo de perda auditiva que uma pessoa tem quando trabalha sem usar o fone de proteção”. Segundo ela, esse pode ser um fator decisivo na hora da contratação, uma vez que a empresa se preocupa com o avanço do problema.

A surdez psicológica
Quando o assunto é fone de ouvido, não é só para o volume que devemos atentar. Se usados demasiadamente, os fones também podem ter um efeito negativo nas relações pessoais, causando o isolamento social do indivíduo. O psicólogo Denis Bueno ressalta que “primeiramente, é importante observar que a tecnologia por ela mesma não é boa nem má, a forma como ela é utilizada pelo homem é que faz toda a diferença”. Bueno conta que vê muitas pessoas nas ruas com seus fones de ouvido, totalmente desatentas ao mundo real como se estivessem em um mundo alternativo, isto é, no mundo apenas delas. “Essa é uma falsa sensação”, diz ele, “que faz com que as pessoas se isolem cada dia mais dos outros, pois não têm o contato auditivo ou verbal com seu semelhante e, por isso, não ouvem as reclamações nem os elogios, e não se atentam para os movimentos ou sons ao seu redor.”

A pergunta a ser feita é: Por que as pessoas se escondem atrás de seus fones? A resposta talvez esteja no sistema capitalista e individualista que rege o mundo em que vivemos. Um mundo “onde o outro e o que ele faz não me importa mais, portanto não preciso mais ouví-lo, por isso, faço tudo sozinho, inclusive ouvir música” – avalia o psicólogo.

Os maiores prejudicados por essa prática talvez sejam as crianças e os adolescentes. De acordo com Bueno, “a psicologia sempre considerou a escuta um mecanismo muito importante para entender o outro e ajudá-lo de diversas formas, forma essa essencial para a relação entre pais e filhos”. Assim, quando não há essa troca, um torna-se desconhecido do outro, e a função do adulto de preparar a criança e o jovem – que, cedo ou tarde, tornam-se responsáveis pela continuidade do mundo – fica comprometida.

terça-feira, 10 de março de 2009

Um café com muito ânimo

Dona Cleonice acorda bem antes do Sol nascer para enfrentar uma jornada: ela vende café da manhã para os apressados paulistanos, na esquina da Avenida Paulista com a rua Peixoto Gomide. Conversamos com ela para saber um pouco mais sobre a sua vida, que é um verdadeiro exemplo de força e disposição.

A: Amanda C: Cleonice

A: A que horas a senhora acorda?
C: Às três da manhã, isso quando eu não trago coxinha, essas coisas. Se eu fizer coxinha, salgado, aí eu levanto às duas e meia. Então é assim: eu trago lanche natural e misto quente. Esses eu faço de madrugada, que é quando eu trabalho. Agora esses que estão aqui são pães caseiros recheados, eu faço de frango, de lingüiça, de frios. Então é tudo feito em casa.

A: E o que a senhora faz depois que fecha a banca?
C: Como eu não tenho capital de giro, eu faço uma “Via Sacra”, sabe? Eu passo pra comprar os frios... então se num supermercado tá mais barato uma coisa, eu passo pra comprar, se está mais barato no outro, eu vou lá. Eu vou com um Voyage 63 caindo aos pedaços. Aí no supermercado eu pego tudo que eu preciso pro outro dia: açúcar, ovos, leite.Chego em casa, primeira coisa: esvazio as garrafas, jogo o que sobrou fora. Se sobra leite, eu aproveito pra fazer bolo, se sobra leite com chocolate, eu uso pro bolo de chocolate. E aí já começo a fazer as coisas para o dia seguinte.

A: E que horas a senhora pára?
C: Depende do material que eu vou trazer no dia seguinte, porque eu não tenho fogão industrial, eu tenho dois fornos comuns. Então eu começo a trabalhar uma hora da tarde e geralmente vou até às sete.

A: Depois disso a senhora já vai dormir, então?
C: Não, antes tenho que ferver a água pra deixar nas garrafas, porque no outro dia eu acordo cedo e até ferver a água pra fazer 10 litros de café demora muito.

A: São 10 litros por dia?
C: Sim, porque a minha filha tá desempregada e ela tem uma banquinha pra trabalhar comigo. Eu trago no total 11 garrafas, mas nem sempre vende tudo. Hoje mesmo, tem essa que está cheiinha, as outras estão todas vazias.

A: E a senhora faz tudo sozinha ou ela te ajuda?
C: Ela ajuda, mas às vezes ela não aguenta, porque ela chega muito cansada, então ela vai dormir. Porque eu levanto às três e meia, e chamo ela às 4 h, 4h20. Então ela não aguenta.

A: Ela é a sua única filha?
C: Não, eu tenho três filhos. O mais velho, que é pai de uma menina de 4 anos e paga pensão. Mas ele está desempregado, só faz serviço temporário, então quem paga a pensão sou eu. Ele vai fazer 33 anos em agosto e a minha filha 32 em novembro. O mais novo tem 24 anos, é pai de uma meninha que vai fazer 8 meses. Ele mora comigo, é diabético e é difícil ele conseguir um emprego, porque geralmente ele não passa no exame médico, porque a doença o deixa numa montanha-russa.

A: Só ele vive na sua casa?
C: Todos moram comigo, são todos solteiros.

A: Há quanto tempo a senhora trabalha vendendo café da manhã?
C: Seis anos. Quando eu comecei, eu ficava na esquina da Ministro, mas aí me mandaram sair de lá. Aí eu fique aqui na Avenida, em frente ao estacionamento, perto do ponto de ônibus. Ali eu fiquei por cinco anos, mas quando colocaram o Fórum eu tive que sair. Aqui eu estou há uns quatro meses.

A: Antes disso, no que a senhora trabalhava?
C: Trabalhei de doméstica, de diarista, de vendedora de alumínio, em feira. Já fiz de tudo na minha vida, só não matei, não roubei e não traí o marido, por enquanto.

A: Quando a senhora teve a idéia de vender café?
C: Olha, a situação nos obriga a essas coisas. Eu não tenho estudo. Não sou burra, mas não tenho estudo. Eu fiz até o primeiro ano do colegial, na minha época: a quinta séria de hoje. No ano passado eu comecei a fazer a quinta, mas não conclui, porque eu tinha que levantar muito cedo pra trabalhar e não consegui, então eu parei. Então, quando eu parei de vender marmitex, passei por uma situação muito difícil, pois tinha levado um calote muito grande porque eu vendia por mês. Na época, isso em 99, todo mundo em casa estava desempregado. Aí eu fui trabalhar de doméstica e fazia salgados, pra me manter, e o meu marido fazia uns bicos. Mas a situação apertou demais, e eu não tinha dinheiro pra começar nada. Então o meu cunhado fez um empréstimo de R$ 300,00 pra eu comprar as primeiras garrafas. Porque eu pensei: o que eu sei fazer? Cozinhar. Então é isso que eu vou fazer. Aí eu vim na Avenida, pra ver onde eu podia colocar a banca.

A: A senhora é de São Paulo?
C: Sou e não sou. Eu nasci no interior, em Jaboticabal, e então eu casei com 18 anos e vim pra São Paulo. Já estou com 34 anos de casada, então, há bastante tempo na cidade.

A: O que a senhora acha da cidade? Porque, afinal de contas, é por causa da correria da cidade que as pessoas têm de tomar café na rua, a caminho do trabalho.
C: É, São Paulo é uma loucura, mas é uma loucura boa. E eu penso o seguinte, aqui, pode não ter emprego pra todos, mas não ganha dinheiro quem não tem coragem de trabalhar. Porque se você não tem um emprego, mas tem R$ 10,00, você compra carne e começa a vender churrasquinho na esquina. Ou então você sai na rua pra catar latinha, ou se oferece pra fazer a faxina ou passar a roupa do vizinho.

A: A senhora sairia daqui?
C: Se eu tivesse condições, sim, eu sairia. Eu já estou com 51 anos, e o meu marido com 60, quase se aposentando. Então se eu pudesse, eu iria para o interior, parar ter uma vida mais tranqüila.

A: E quando está chovendo, como a senhora faz?
C: Eu trago um guarda-chuva, um plástico fino. Do jeito que der pra trabalhar, a gente faz. A não ser que esteja ventando tanto que não dê pra montar a banca.

A: Como a senhora lida com os moradores de rua que pedem café?
C: Eu não nego pra nenhum, porque o que eu dou pra eles Deus me dá dobrado.

A: A senhora é católica? Costuma ir à Igreja?
C: Sou católica, mas não gosto de ir à Igreja. Quando preciso, eu falo direto com Ele. Se eu tiver que conversar e pedir pra Deus - que na verdade eu não peço - eu só peço saúde, disposição e que Ele não me deixe desanimar. Porque se hoje a venda tá fraca, amanhã vai melhorar.

A: E a senhora já pensou em parar com as vendas?
C: Não. Eu só vou parar com isso aqui, quando eu ganhar na loto, e eu jogo!

Amo muito tudo isso!


O cheiro de batata frita no ar era característico e as cores - vermelho e amarelo - estavam espalhadas por todo o salão. Escolhemos uma mesa no canto para conversar e enquanto sentávamos nas conhecidas cadeiras giratórias ele tirava o boné com o grande M na frente, afinal, o seu turno já havia acabado.

Comecei perguntando o nome e a idade. “Pedro Henrique de Souza” – me informou – “23 anos, 12 meses e alguns dias”. Seu aniversário foi na última semana, quando completou 24 anos – que não seriam anunciados, por causa da popular brincadeira entre os garotos, afirmando que essa é uma idade decisiva para a vida de um homem. “Não que eu me preocupe” – disse ele.

Pedro é caixa de um dos restaurantes da rede McDonald’s, na avenida Paulista, número 810. Está trabalhando há quase um ano, tempo suficiente para ver a sua foto estampada no quadro de Funcionário do Mês, o que diz ser gratificante: “te dá um pouco mais de segurança e a certeza de que você está conseguindo fazer as coisas certas no meio daquela correria”. Realmente, o lugar não pára: o trabalho começa às 8 horas, uma hora antes do restaurante abrir, “temos que arrumar tudo, limpar, começar a preparar as coisas para o café da manhã, que faz parte do novo menu”, explica. Pedro tem uma pequena pausa às 13 horas para almoçar e logo volta para o caixa, onde dezenas de clientes esperam por seus lanches. O tempo passa, mas o serviço – dele – só vai acabar às 17 horas, quando Pedro sai correndo para a PUC, no campus Santana, onde cursa o primeiro ano de Administração.

Sobre casos engraçados que já presenciou, ele conta sobre uma mulher que chegou no restaurante pedindo um BigMac... sem hambúrguer. “Já vi as pessoas tirarem de tudo: cebola, alface, tomate, mas hambúrguer... foi a primeira e única vez” – diz, rindo.

“Trabalhar no McDonald’s não foi bem uma escolha, foi mais uma necessidade” – conta Pedro – “eu acabei demorando para entrar na faculdade, por diversos motivos, e, quando entrei, precisava de um trabalho... aceitei o primeiro que apareceu”. Era inevitável perguntar quais eram os diversos motivos, o que gerou uma certa exitação em sua voz... quase 20 segundos de espera, nos quais podia-se ouvir o som do hambúrguer fritando na chapa da cozinha e as pessoas conversando nas mesas mais próximas. Embora não tivesse a obrigação de responder, Pedro explicou que passou por um momento ruim, logo após a morte da sua mãe, quando começou a andar com más companhias, a beber e a usar drogas. “Felizmente” – diz – “meu pai sempre esteve do meu lado e me ajudou a sair dessa”.

Pedro tem planos para o futuro: quer se formar na faculdade e ir trabalhar no setor de administração de alguma grande empresa, “uma IBM me deixaria muito feliz mas, se não der... bom, eu posso administrar um carrinho de lanches” – brinca. Apesar de tudo, diz que só sairia do McDonald’s se recebesse uma proposta melhor, “o que eu posso fazer? Aqui é uma loucura, mas eu amo muito tudo isso”!