terça-feira, 10 de março de 2009

Amo muito tudo isso!


O cheiro de batata frita no ar era característico e as cores - vermelho e amarelo - estavam espalhadas por todo o salão. Escolhemos uma mesa no canto para conversar e enquanto sentávamos nas conhecidas cadeiras giratórias ele tirava o boné com o grande M na frente, afinal, o seu turno já havia acabado.

Comecei perguntando o nome e a idade. “Pedro Henrique de Souza” – me informou – “23 anos, 12 meses e alguns dias”. Seu aniversário foi na última semana, quando completou 24 anos – que não seriam anunciados, por causa da popular brincadeira entre os garotos, afirmando que essa é uma idade decisiva para a vida de um homem. “Não que eu me preocupe” – disse ele.

Pedro é caixa de um dos restaurantes da rede McDonald’s, na avenida Paulista, número 810. Está trabalhando há quase um ano, tempo suficiente para ver a sua foto estampada no quadro de Funcionário do Mês, o que diz ser gratificante: “te dá um pouco mais de segurança e a certeza de que você está conseguindo fazer as coisas certas no meio daquela correria”. Realmente, o lugar não pára: o trabalho começa às 8 horas, uma hora antes do restaurante abrir, “temos que arrumar tudo, limpar, começar a preparar as coisas para o café da manhã, que faz parte do novo menu”, explica. Pedro tem uma pequena pausa às 13 horas para almoçar e logo volta para o caixa, onde dezenas de clientes esperam por seus lanches. O tempo passa, mas o serviço – dele – só vai acabar às 17 horas, quando Pedro sai correndo para a PUC, no campus Santana, onde cursa o primeiro ano de Administração.

Sobre casos engraçados que já presenciou, ele conta sobre uma mulher que chegou no restaurante pedindo um BigMac... sem hambúrguer. “Já vi as pessoas tirarem de tudo: cebola, alface, tomate, mas hambúrguer... foi a primeira e única vez” – diz, rindo.

“Trabalhar no McDonald’s não foi bem uma escolha, foi mais uma necessidade” – conta Pedro – “eu acabei demorando para entrar na faculdade, por diversos motivos, e, quando entrei, precisava de um trabalho... aceitei o primeiro que apareceu”. Era inevitável perguntar quais eram os diversos motivos, o que gerou uma certa exitação em sua voz... quase 20 segundos de espera, nos quais podia-se ouvir o som do hambúrguer fritando na chapa da cozinha e as pessoas conversando nas mesas mais próximas. Embora não tivesse a obrigação de responder, Pedro explicou que passou por um momento ruim, logo após a morte da sua mãe, quando começou a andar com más companhias, a beber e a usar drogas. “Felizmente” – diz – “meu pai sempre esteve do meu lado e me ajudou a sair dessa”.

Pedro tem planos para o futuro: quer se formar na faculdade e ir trabalhar no setor de administração de alguma grande empresa, “uma IBM me deixaria muito feliz mas, se não der... bom, eu posso administrar um carrinho de lanches” – brinca. Apesar de tudo, diz que só sairia do McDonald’s se recebesse uma proposta melhor, “o que eu posso fazer? Aqui é uma loucura, mas eu amo muito tudo isso”!

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