terça-feira, 10 de março de 2009

Um café com muito ânimo

Dona Cleonice acorda bem antes do Sol nascer para enfrentar uma jornada: ela vende café da manhã para os apressados paulistanos, na esquina da Avenida Paulista com a rua Peixoto Gomide. Conversamos com ela para saber um pouco mais sobre a sua vida, que é um verdadeiro exemplo de força e disposição.

A: Amanda C: Cleonice

A: A que horas a senhora acorda?
C: Às três da manhã, isso quando eu não trago coxinha, essas coisas. Se eu fizer coxinha, salgado, aí eu levanto às duas e meia. Então é assim: eu trago lanche natural e misto quente. Esses eu faço de madrugada, que é quando eu trabalho. Agora esses que estão aqui são pães caseiros recheados, eu faço de frango, de lingüiça, de frios. Então é tudo feito em casa.

A: E o que a senhora faz depois que fecha a banca?
C: Como eu não tenho capital de giro, eu faço uma “Via Sacra”, sabe? Eu passo pra comprar os frios... então se num supermercado tá mais barato uma coisa, eu passo pra comprar, se está mais barato no outro, eu vou lá. Eu vou com um Voyage 63 caindo aos pedaços. Aí no supermercado eu pego tudo que eu preciso pro outro dia: açúcar, ovos, leite.Chego em casa, primeira coisa: esvazio as garrafas, jogo o que sobrou fora. Se sobra leite, eu aproveito pra fazer bolo, se sobra leite com chocolate, eu uso pro bolo de chocolate. E aí já começo a fazer as coisas para o dia seguinte.

A: E que horas a senhora pára?
C: Depende do material que eu vou trazer no dia seguinte, porque eu não tenho fogão industrial, eu tenho dois fornos comuns. Então eu começo a trabalhar uma hora da tarde e geralmente vou até às sete.

A: Depois disso a senhora já vai dormir, então?
C: Não, antes tenho que ferver a água pra deixar nas garrafas, porque no outro dia eu acordo cedo e até ferver a água pra fazer 10 litros de café demora muito.

A: São 10 litros por dia?
C: Sim, porque a minha filha tá desempregada e ela tem uma banquinha pra trabalhar comigo. Eu trago no total 11 garrafas, mas nem sempre vende tudo. Hoje mesmo, tem essa que está cheiinha, as outras estão todas vazias.

A: E a senhora faz tudo sozinha ou ela te ajuda?
C: Ela ajuda, mas às vezes ela não aguenta, porque ela chega muito cansada, então ela vai dormir. Porque eu levanto às três e meia, e chamo ela às 4 h, 4h20. Então ela não aguenta.

A: Ela é a sua única filha?
C: Não, eu tenho três filhos. O mais velho, que é pai de uma menina de 4 anos e paga pensão. Mas ele está desempregado, só faz serviço temporário, então quem paga a pensão sou eu. Ele vai fazer 33 anos em agosto e a minha filha 32 em novembro. O mais novo tem 24 anos, é pai de uma meninha que vai fazer 8 meses. Ele mora comigo, é diabético e é difícil ele conseguir um emprego, porque geralmente ele não passa no exame médico, porque a doença o deixa numa montanha-russa.

A: Só ele vive na sua casa?
C: Todos moram comigo, são todos solteiros.

A: Há quanto tempo a senhora trabalha vendendo café da manhã?
C: Seis anos. Quando eu comecei, eu ficava na esquina da Ministro, mas aí me mandaram sair de lá. Aí eu fique aqui na Avenida, em frente ao estacionamento, perto do ponto de ônibus. Ali eu fiquei por cinco anos, mas quando colocaram o Fórum eu tive que sair. Aqui eu estou há uns quatro meses.

A: Antes disso, no que a senhora trabalhava?
C: Trabalhei de doméstica, de diarista, de vendedora de alumínio, em feira. Já fiz de tudo na minha vida, só não matei, não roubei e não traí o marido, por enquanto.

A: Quando a senhora teve a idéia de vender café?
C: Olha, a situação nos obriga a essas coisas. Eu não tenho estudo. Não sou burra, mas não tenho estudo. Eu fiz até o primeiro ano do colegial, na minha época: a quinta séria de hoje. No ano passado eu comecei a fazer a quinta, mas não conclui, porque eu tinha que levantar muito cedo pra trabalhar e não consegui, então eu parei. Então, quando eu parei de vender marmitex, passei por uma situação muito difícil, pois tinha levado um calote muito grande porque eu vendia por mês. Na época, isso em 99, todo mundo em casa estava desempregado. Aí eu fui trabalhar de doméstica e fazia salgados, pra me manter, e o meu marido fazia uns bicos. Mas a situação apertou demais, e eu não tinha dinheiro pra começar nada. Então o meu cunhado fez um empréstimo de R$ 300,00 pra eu comprar as primeiras garrafas. Porque eu pensei: o que eu sei fazer? Cozinhar. Então é isso que eu vou fazer. Aí eu vim na Avenida, pra ver onde eu podia colocar a banca.

A: A senhora é de São Paulo?
C: Sou e não sou. Eu nasci no interior, em Jaboticabal, e então eu casei com 18 anos e vim pra São Paulo. Já estou com 34 anos de casada, então, há bastante tempo na cidade.

A: O que a senhora acha da cidade? Porque, afinal de contas, é por causa da correria da cidade que as pessoas têm de tomar café na rua, a caminho do trabalho.
C: É, São Paulo é uma loucura, mas é uma loucura boa. E eu penso o seguinte, aqui, pode não ter emprego pra todos, mas não ganha dinheiro quem não tem coragem de trabalhar. Porque se você não tem um emprego, mas tem R$ 10,00, você compra carne e começa a vender churrasquinho na esquina. Ou então você sai na rua pra catar latinha, ou se oferece pra fazer a faxina ou passar a roupa do vizinho.

A: A senhora sairia daqui?
C: Se eu tivesse condições, sim, eu sairia. Eu já estou com 51 anos, e o meu marido com 60, quase se aposentando. Então se eu pudesse, eu iria para o interior, parar ter uma vida mais tranqüila.

A: E quando está chovendo, como a senhora faz?
C: Eu trago um guarda-chuva, um plástico fino. Do jeito que der pra trabalhar, a gente faz. A não ser que esteja ventando tanto que não dê pra montar a banca.

A: Como a senhora lida com os moradores de rua que pedem café?
C: Eu não nego pra nenhum, porque o que eu dou pra eles Deus me dá dobrado.

A: A senhora é católica? Costuma ir à Igreja?
C: Sou católica, mas não gosto de ir à Igreja. Quando preciso, eu falo direto com Ele. Se eu tiver que conversar e pedir pra Deus - que na verdade eu não peço - eu só peço saúde, disposição e que Ele não me deixe desanimar. Porque se hoje a venda tá fraca, amanhã vai melhorar.

A: E a senhora já pensou em parar com as vendas?
C: Não. Eu só vou parar com isso aqui, quando eu ganhar na loto, e eu jogo!

Um comentário:

Anônimo disse...

ADOREI ^^
tudo..o fato de vc ter postado aqui denovo..as entrevistas, tudo mtu bem feitinho...como todas as coisas da amanda neh xD.

bjus